VAMOS
FALAR UM POUCO SOBRE BLUES?
Pouco
se fala de Blues. Comentários pontuais aqui e ali sem o merecido
destaque. Um festival aqui e ali, valendo-se mais da abnegação
dos aficionados. Que missão é esta? O Blues, reconhecidamente
raiz e base de tantos outros gêneros musicais, gravita em um universo
aonde deveria ser uma espécie de astro – rei.
Ao visitar uma loja de CD´s em um shopping, um amigo ficou surpreso,
pois a pequena estante reservada ao Blues/Jazz possuía 80% de
títulos reservados ao Jazz. O pequeno espaço reservado
ao Blues, oferecia Clapton, B.B.King e Steve Ray, indicando descaso
e despreparo da gerência em relação ao gênero.
Convenhamos que estes três astros, reconhecidamente talentosos,
pouco representam no vasto e rico mundo do Blues. Algumas lojas nos
Estados Unidos da América possuem dois andares dedicados ao Blues.
O Brasil possui um celeiro de Músicos de Blues, alguns reconhecidos
internacionalmente, mas curiosamente, Celso Blues Boy, nosso popularíssimo
ícone máximo do blues, terá que tocar "aumenta
que isso aí é rock`n`roll, senão o público
reclama. Cazuza, nosso maior cantor de Blues, precisou passear pelo
rock, além de contar com seu forte “paidrinho”, para
adquirir notoriedade. Nossas possíveis musas Angela Roro, Cássia
Eller e Zélia Duncan, todas com carreiras vitoriosas, nunca foram
definidas como: cantora de Blues.
Alguns amigos, que se propuseram ao aprofundamento no gênero,
peregrinaram pelas lojas, até encontrarem uma loja especializada
em "coisas raras", e assim poderem adquirir algo mais definido
como Blues. A própria tríade do Blues nacional: Baseado
em Blues, Blues Etílicos e Big Allanbik, o consagrado André
Cristovan (brasileiro) e os “nossos” estrangeiros Nuno Mindelis
(angolano), Danny Vincent (argentino) e Victor Biglione (argentino),
são títulos difíceis de encontrar. Flávio
Guimarães, Andy Boy, Sun Walk, Big Chico, Robson Fernandes, Maurício
Sahady, Lancaster, Marcelo Watanabe, Sérgio Bap, Ivan Mariz,
Zé da Gaita, Vasco Faé, Bebeco Garcia, Jefferson Gonçalves,
Sérgio Duarte, Fernando Noronha, Victor Gaspar, Big Joe Manfra,
Val Tomato, Mimi Lessa, Paulo Meyer, Márcio Maresias, Marcos
Otaviano, etc, são músicos já consagrados, porém
sem um reconhecimento da grande mídia. O mesmo acontece com as
bandas. Lappan & Bluesbrother no sul, Clube 34 em Minas, Gang no
Ceará, Bando do Velho Jack no Mato Grosso do Sul e uma infinidade
no Rio e São Paulo. Trabalhos de altíssimo nível,
mas que não chegam ao grande público. E olha que vamos
lembrar de mais uma dezena depois hein?
Alterar este quadro adverso é uma missão árdua,
não temos esta pretensão. Podemos contudo, manter a chama
acesa e alimentá-la pouco a pouco. O Blues, nascido no século
XIX (dezenove), atravessou o século XX (vinte) e com certeza
sobreviverá ao XXI (vinte e um). Entrem nas lojas e peçam
CD de Blues, dos mais enraizados até nossos músicos nacionais.
Freqüentem os shows de Blues que acontecem pelos bairros, em casas
simples e aconchegantes. Não esperem os mega-shows do Eric Clapton
ou os badalados do Free Jazz. Nossos músicos são pessoas
comuns que freqüentam as mesmas praças, praias e bares que
você, mas que fazem um som fiel, honrando a dignidade e a nobreza
dos nossos ancestrais nas longínquas plantações
de algodão do Delta do Mississipi. Na próxima a gente
fala de rock, ok?
Arildo bluesman abril/2002